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17.10.04

Episode 7 

A sala do Sr. Fernando era excêntrica e bizarra. Era a sala das salas de Nada De Haver. Não que muitos habitantes de Nada De Haver tivessem tido a oportunidade de ali ter refastelado o corpo, já que o mau génio e feitio do Sr. Fernando afastava muita gente daquela zona da aldeia, mas o constante corropio de homens de mudanças frente à sua casa e a volumetria de muitos dos objectos transportados para o interior da habitação, faziam o delírio da população e tantas suposições eram feitas que o mito foi nascendo. Alturas houve que havia quem jurasse a pés juntos que tinha visto um rinoceronte a ser descarregado. Mas eram só rumores e o Sr. Fernando delirava com o efeito que a sua equipa de mudanças provocava nas gentinhas de Nada de Haver. É que o Sr. Fernando considerava-se superior. E as gentes de Nada De Haver também o consideravam superior. O Sr. Fernando, apesar da sua velhice fulminante, era ainda respeitado em Nada de Haver e nas povoações vizinhas ainda havia velhinhas simpáticas que guardavam nas suas memórias mais íntimas o dia em que por uns instantes foram a mulher daquele garboso Playboy que nos seus tempos de juventude passeava todo casanova ao volante do seu desportivo descapotável. O Sr. Fernando foi o primeiro habitante de Nada De Haver a ter um carro. Comprou-o usado em Espanha. Trouxe-o para Nada De Haver e abusando da sua habilidade natural para as reparações transformou o velhinho modelo num potente bólide. Nesses tempos delirava fazer voar as galinhas à sua passagem. O estampido do velho motor a roncar a alta rotação troava avenida acima, ladeira abaixo, fazia estremecer as paredes, derrubava baldes de leite, punha os animais em euforia e claro, foi convocada uma reunião popular, nas traseiras da Junta Popular de Nada De Haver, onde foi definido um conjunto de regras que limitasse a presença daquele animal motorizado que a todos incomodava. Nascia assim o primeiro Código da Estrada de Nada De Haver, que ainda hoje vigora na sua redacção original. O Sr. Fernando foi o primeiro habitante de Nada De Haver a abrir um Bar. Primeiro começaram as festas ao final da tarde onde era habitual as mães acompanharem as filhas enquanto os pais se entretinham a jogar partidas de futebol Solteiros vs Casados. Terminava tudo ao estalo e era uma tarde bem passada. Mas o Sr. Fernando queria mais e acabou com o horário vespertino. Mandou pintar o bar de preto, instalou umas luzes brancas e amarelas que fizeram as delícias das crianças e colou uns posters com réplicas de quadros de pintores famosos. Foi o fracasso. Nada De Haver não estava preparada para coisa tão chique. Mas então, o Sr. Fernando arrancou os posters dos pintores e colocou estátuas de gesso de jovens musculosos e garotas lascivas, desligou as luzes amarelas e colocou luzes vermelhas, mandou forrar uns sofás a veludo e contratou quatro espanholas. Mudou o nome para Hernandez's Pub e foi até Espanha no seu carro fazer marketing. Assim nasceu a primeira casa de putas de Nada De Haver. Chegavam em hordas aqueles espanhóis carregados de sonoros "Mira" e "Venga". Mas não eram só espanhóis que frequentavam os corpos de Concha, Paquita, Lola e Mercedez. Havia alguns elementos da Alta Administração de Nada De Haver que ali se entregavam aos prazeres da bebida, da comida e da "Movida". E com isso não podiam as mulheres de Nada De Haver. Ouve mais uma reunião popular nas traseiras da Junta Popular de Nada De Haver e assim fechou a primeira casa de putas de Nada De Haver.
O Sr. Fernando foi o primeiro habitante de Nada De Haver a ter televisão. Homem vivido, comprou o aparelho em Espanha e trouxe-o para a sua sala. Foi o pânico em Nada De Haver: multidões aglomeravam-se à porta da casa do Sr. Fernando e deitavam-se a adivinhar respostas para tanto som diferente: se era um western a passar na televisão fugiam todos ao ouvir o som dos cavalos a galope, e se alguém resistia, ao som do primeiro tiro era vê-lo largar a correr, agachado, com medo daquele tiroteio. E o Sr. Fernando ficava chateado, claro. Com tanta gente à porta tinha de colocar o som mais alto para ouvir alguma coisa. Quando estreou o “E tudo o vento levou” ninguém mais aguentou. Ao som dos bombardeamentos gerou-se uma histeria colectiva. Tiveram medo que fosse o fim do mundo e largaram alvoraçados pela aldeia fora a guardar os seus pertences. Mais tarde voltaram e pediram explicações. O Sr. Fernando abriu a porta e convidou toda a gente a conhecer a última maravilha da tecnologia. Todos carregaram nos botões, todos ficaram maravilhados com as imagens e ninguém quis arredar pé. E no dia seguinte voltaram mais. E no outro mais ainda e de povoações diferentes. E no outro de lugares distantes e todos exigiam ver a caixa mágica do Sr. Fernando que se fartou, embalou a televisão e foi devolvê-la à procedência. E assim desapareceu a primeira televisão de Nada De Haver.
O Sr. Fernando foi o primeiro habitante de Nada De Haver a dar a volta ao mundo. Andou por lá quase dois anos e a aldeia andou em paz. Quando regressou trazia a cabeça cheia de ideias e um arsenal de bagagens que Nada De Haver nunca tinha visto. Mas o pior foram as histórias de coisas que Nada De Haver nunca tinha ouvido falar. Quando o Sr. Fernando contou a história de um homem na Índia que se elevava no ar só com a força do próprio pensamento ninguém acreditou. Quando contou a história dos leões e dos tigres e das girafas e dos elefantes e dos macacos e dos papagaios e das zebras que encontrou em África, ninguém acreditou. Quando o Sr. Fernando contou a história das ruínas de Salomão e de Roma e do Egipto e da Grécia todos zombaram. Mas quando o Sr. Fernando contou a história da Estátua da Liberdade e dos prédios a arranhar o céu, e dos carros aos enxames e das pessoas em multidões todos acharam que o Sr. Fernando estava louco. E o Sr. Fernando que não estava louco, fechou-se em casa e não mais dirigiu palavras ao mundo. O mundo estava em sua casa, no seu quarto, no seu corredor, na sua sala. E é por isto que a sala do Sr. Fernando é a sala das salas das casas de Nada de Haver. É por isto que a Sala do Sr. Fernando é excêntrica e bizarra.

29.1.04

Episódio 5 

O Sr. Artur levantou-se um pouco mais tarde do que lhe era habitual. Saiu da cama e arranhou a barba. Já tinha alguns dias, é certo, mas ao preço das lâminas, nem pensar. Aguenta mais um dia… ou outro. Levantou-se, já disse e seguiu até à casa de banho. A luz era deslavada e coava-se por entre aqueles vidros martelados, muito típicos dos seventies. Olhou-se ao espelho, confirmou o tamanho do pêlo e molho a cara. Depois os ombros e mesmo debaixo dos braços. Lavou outras partes. Sentia-se fresco. Merda! Deu-lhe vontade! Agachou-se na retrete e passou os olhos pelo compêndio de História Natural. Folheava vagamente interessado nas legendas das ilustrações. Descarregou o autoclismo. Voltou a lavar-se. Penteou-se. Foi à cozinha beber café. Tragou cinco pães e olhou esperançoso para a saca do pão. Podia ser que as migalhas escondessem mais um. Que fome! Bebeu mais café e lá acabou por enfunilar a saca de modo a que as migalhas lhe caíssem na boca. Uma melga ter-lhe-á mordido a pele, pois coçava-se insistentemente num só local. Tinha de ser na mão! Praguejou. Voltou à casa de banho. Lavou os dentes. Usava sempre a mesma marca de dentífrico. Olhou ao espelho. Os vidros devolviam-lhe um ar cansado. As pregas da cara confundiam-se umas nas outras e criavam já alguns sulcos. Estás velho meu caro! Dizia-se-lhe enquanto penteava a farta cabeleira. Era espessa! Cabelo de preto!!! Gozava para consigo. Estava pronto.
O Sr. Artur era um homem de rituais e dado a poucos luxos. Tal como a maioria dos cidadãos de Nada de Haver o Sr. Artur não precisava de trabalhar. Havia alguns que o faziam mas esses eram meio marginais. O Governo Transitório para a Cidadania, eleito nas eleições de 74, tinha criado as condições perfeitas para um homem daquela idade poder gozar a vida. De acordo com um contrato com o Banco Central de Nada de Haver o Sr. Artur terá recebido durante a sua juventude um valor determinado para que pudesse ter vivido uma vida confortavelmente desregrada. Mais tarde, iria trabalhar e poderia saldar o contrato. Após a denúncia do mesmo, paga a dívida, se o Sr. Artur tivesse ganho mais com o seu trabalho do que a dívida contraída, poderia ficar com o excedente. Mais! Se o Sr. Artur estivesse integrado no Plano de Dádiva de Órgãos Post Mortem de Nada de Haver, do Sistema de Saúde de Nada de Haver, voltaria a receber a quantia entregue ao Banco Central de Nada de Haver. E estava! Não que o tivesse planeado. Mas no momento em que se alistou nas Forças Armadas Coligadas de Nada de Haver teve de assinar montes de papéis. E no meio de tantas cruzes assinadas, lá foi também, mais uma escrevinhada “Declaro que em caso de morte natural, acidental, induzida, ou por doença, toda a complexidade do meu corpo será propriedade do Sistema de Saúde de Nada de Haver, que dele fará mais um pretexto para a boa saúde da humanidade”.
Sentou-se no sofá e puxou da manta. Tudo bem que até estava sol mas um gajo parece que só está bem com uma manta pelas canelas! Ligou a TV. E depois o DVD. Estava indeciso entre o programa da tarde, apresentado por quatro espanholas de sonho “estás velho mas não estás morto” ou um documentário sobre as belezas naturais de Nada de Haver. Que se lixe! E ligou outro televisor. Assim via os dois programas ao mesmo tempo e não tinha que decidir. Não sabia decidir-se! E não gostava nada de jogos de azar. Em breve adormeceu. Não sonhou. Não se mexeu. Há quem se espreguice muito e se agite e boceje e volte a virar-se até ter o corpo todo pisado para conseguir dormir. Quem entrasse naquela sala agora encontrava-o morto! E depois era um alvoroço! Quereriam enterrá-lo mas ele não podia porque tinha era que ir o mais depressa possível para as instalações do Sistema de Saúde de Nada de Haver. Porque já agora, até depois de morto deixem-se ser útil. Não! Deixou-se estar a dormir. Inanimado. Dir-se ia que eram um só: um magnífico conjunto de duas TV’s + um DVD + um sofá e um Sr. Artur de oferta. De repente despertou. Não que tivesse ficado agitado. Se as pálpebras fazem algum ruído a abrir, então foi esse o som que se ouviu naquela sala. Não! O Sr. Artur era um homem de rituais, certo? Passava já pouco das 15H00. Bolas! Desta vez tinha mesmo adormecido! Vou chegar tarde. E lá foi até à varanda. Mexe-te! Apoiou-se aos móveis, pegou num caderno, na manta, abriu a porta e Merda, já lá está! Do outro lado da rua, na sua casa o Sr. Fernando estava já sentado na sua velha cadeira balouçante. Nos braços tinha um gato persa. Não trocaram palavra. Nem um piscar de olhos. O Sr. Artur sentou-se na sua, ainda mais velha, cadeira de braços. Colocou a manta sobre os joelhos. Abriu o caderno. Folheou umas páginas muito encardidas e com o lápis que veio sabe-se lá de onde rabiscou uma cruz numa espécie de diagrama. Tinha perdido mais uma vez. O Sr. Artur e o Sr. Fernando não se falavam à uma série de anos. Mas todos os dias se colocavam frente a frente. Varanda com varanda. Cadeira com Cadeira. A questão estava em quem chegava primeiro à varanda. Do outro lado da rua o Sr. Fernando afagava o gato. No chão, junto à cadeira, estava o seu caderno. Não sei se o gato do Sr. Fernando percebe alguma coisa de rabiscos humanos. Mas o que é certo é que olhava fascinado para aquela cruz que assinalava claramente quem tinha ganho a competição naquele dia.

24.1.04

Episode III 

"Dear Sheryl: I'm writing to you, hopping you would consider my request of a weekend spent with you. I'm such a fan of yours and I dream the day when my lips will touch your face, and a new reborn man stunns upon the face of the earth. My heart cries for you but my strong love is renewed every day. I love you so much... If you make me happy, it can be that bad!" - escrevia assim, o Sr. David o décimo mail naquela manhã para a sua cantora de música preferida.
Era mais que um ritual diário. Fazia parte da sua vida importada: acordar nos seus lençóis americanos, deitar ao chão o despertador made in korea, ir à casa de banho Teka©, comer os cereais com sabor californiano, vestir os jeans american style, sentar-se ao computador (japonês, claro), colocar o cd da cantora, limpar e endireitar o pó ao retrato dela, abrir o mail e começar a escrever "Dear Sheryl".
E claro que em Nada de Haver toda a gente sabia daquele amor impossível. Mas também ninguém comentava.
Todos os dias 25 de cada mês o Sr. David saía de casa e dirigia-se ao Multibanco, instalado na parede nova da Mercearia de Nada de Haver, propriedade da Caixa Económica de Nada de Haver. Puxava da carteira, sacava do cartão de crédito e carregava o telemóvel. Pedia sempre o recibo. Depois introduzia o cartão e carregava o plafond da internet. Pedia sempre recibo. Aproveitava e levantava dinheiro. Chegava-lhe em abundância porque tinha ganho a lotaria de Nada de Haver. Era uma soma fixa que lhe era depositada mensalmente e que nunca acabava. O Sr. David tinha optado por um plano de poupança a 10% que lhe fazia render a quantia depositada na sede do Banco Central de Nada de Haver (que detinha os capitais da Caixa Económica de Nada de Haver). Por vezes levantava-o todo. Entrava, então, na mercearia e comprava montes de latas de coca-cola, comida em lata das melhores marcas americanas, Marlboro e preservativos. Ensacava as compras, fazia festas ao cão do dono da mercearia de Nada de Haver, saía (batia sempre com as sacas no stand do lado esquerdo) e atravessava a vila a pé. Passava em frente às casas dos Sr. Artur e Fernando. Não dizia nada. Eles também não.
Dirigia-se à Florista de Nada de Haver e encomendava três ramos de flores. Rosas para a D. Vanessa, rosas para a Dear Sheryl. Rosas para ele. Pagava três e levava dois. As Rosas da Dear Sheryl eram, então, levadas pela Florista para os Correios de Nada de Haver. Antes colocava a etiqueta autocolante: With love, David". A florista entrava na estação dos Correios, sorria para a menina dos envelopes e entregava-as ao balcão. O Sr. do Balcão pesava as rosas embora soubesse que pesavam sempre o mesmo. A Florista saía então para as suas flores. As outras, as da Dear Sheryl seguiam para os states e iam juntar-se a todos os outros ramos que haviam sido enviadas por um tal Sr. David de Nada de Haver. Era giro. Todos os meses um ramo de flores frescas fazia companhia a muitos outros, esses secos e castanhos.
Mas nada disto interessava. O Sr. dos Correios ficava contente de ver a Florista. A Florista ficava contente por ver a Menina dos envelopes. E o Sr. David ficava contente por enviar as flores. De manhã tratava das flores da Sheryl. À tarde tratava das outras.
Quando saía da Florista de Nada de Haver o Sr. David trazia dois ramos de flores na mão e um sorriso na cara. Seguia novamente pela vila fora e, exactamente antes da casa do Sr. Artur e do Sr. Fernando cortava à direita no Museu de Nada de Haver. Parava por um momento e seguia em frente, novamente. "Um dia hei-de vir visitar isto" - pensava para consigo - e seguia o seu destino. Sempre a pé passava em frente à casa do Sr. Bruno, cortava à esquerda, subia as escadas do Jardim de Nada de Haver, transpunha a Alameda de Nada de Haver e detinha-se à porta da D. Vanessa. "Odeio gatos" - mastigava para si. E ali ficava durante cerca de 10 minutos. Não se mexia. Tentava não fazer barulho. E aguardava. "Um dia vais abrir essa porta e vais dar comigo aqui prostrado. E eu vou-te dar estas flores. Rosas frescas para uma rosa fresca. E vais amar-me como eu te amo. Seremos namorados. Vamos casar e ter uma casa."
O Sr. David estava parado em frente à porta da D. Vanessa, que vivia ao fundo da Alameda de Nada de Haver. Tinha consigo três sacas de compras e dois ramos de rosas holandesas. A D. Vanessa estava do outro lado da porta. E sabia que aquele Sr. David estava mais uma vez à porta de sua casa. Com aquelas rosas horríveis. Mas porquê?? pensava ela. e aguardava que ele se fosse embora.
Dez minutos vezes três depois o Sr. David foi embora. Estava suado. Levava consigo três sacas e um ramo de rosas menos frescas. A D. Vanessa soltou sete trancas. afastou sete gatos e abriu a porta. Espreitou cuidadosamente para a esquerda. Nada. Espreitou curiosamente para a direita. Mierda!!! Mais um ramo. Agarrou nas rosas, espreitou o cartão e recolheu-se. Foi dar de comida aos gatos (atum para ti, lulas para aquele) e as rosas foram para uma das sete sacas de lixo que estavam na cozinha. Acendeu um cigarro. Pôs-se a olhar para os sete posters que tinha na sala: Dois jogadores de futebol, dois gatos, um actor de cinema, um cão e uma foto aérea da sua casa tirada por uns espanhóis que lhe bateram à porta numa sexta-feira, dia sete. Vou tomar banho, decidiu!
Entrou na casa de banho, tirou o penso mensal, lamentou os seus sete dias de padecimento e enfiou-se no chuveiro. Cantou e dançou. Lavou atrás das orelhas e passou sete vezes o óleo de banho. Estava pronta. Daqui a nada começa o jogo de futebol. Nessa noite jogava o Futebol Clube de Nada de Haver contra uma equipa inglesa conhecidíssima. Depois da partida os jogadores iam jantar a casa da D. Vanessa. Era sempre assim em dias de jogo. À mesa eram servidas refeições variadas, embora soubessem todas ao mesmo: caril e frango. Bateram à porta. A D. Vanessa saiu da casa de banho, vestiu o fato de treino e foi ver quem era. Era o rapaz da mercearia de Nada de Haver. Trazia as compras para o jantar dos meninos do clube de Futebol. Conversaram um pouco. A D. Vanessa pagou e o rapaz da mercearia de Nada de Haver saiu. Ia contente, claro. "É mesmo gira esta gaja!". O rapaz da mercearia entrou na carrinha e seguiu estrada fora. À entrada da Alameda de Nada de Haver encontrou o Sr. David. O rapaz buzinou e seguiu. O Sr. David continuou a andar mais depressa. Ia nervoso "Aquele filho da puta! A ele, ela abre-lhe a porta. É só sorrisos e conversas. Corno!" Ia assim entregue aos seus pensamentos. Um dia ia matá-lo, claro e ela ia amá-lo. E não haverá mais gatos nem jogadores de futebol! Eu é que serei o seu nino!.
Estacou assustado. Ia distraído e nem reparou que estava a falar alto. Tinha pronunciado um velho vocábulo em ninês. E se alguém ouviu? Corado e medroso seguiu em frente. A rua principal da vila estava vazia. Eram 15H00. Passou frente aos Srs. Artur e Fernando. Já lá não estavam. Tinham-se recolhido. o Sr. David sabia bem porquê. Em Nada de Haver quando alguém fala Ninês toda a gente sabe que a lei é quebrada. Shit! - exclamou o sr. David. E dirigiu-se a casa o mais rápido que pôde. Entrou a correr em casa, largou os sacos e o ramo de rosas. Sentou-se no sofá. Recuperou a respiração. Que parvoíce! Ninguém deve ter ouvido claro está. Estava calor, as pessoas foram para casa porque estava calor, claro! Levantou-se, acendeu um cigarro, ligou a televisão. Arrumou as compras e apanhou as rosas holandesas do chão. Foi até à sala. Na TV começava o jogo entre o Futebol Clube de Nada de Haver e a tal equipa inglesa. Foda-se!!- exclamou. As rosas foram logo jogadas para o lixo. Sentou-se ao computador e abriu o mail. Escolheu New Message e começou: "Dear Sheryl...

Episódio II 

Enough about cats! You're probably wondering who the hell is Marlene, and why does she have to be held, right? I have questioned myself many times about this crucial issue, and still haven't come to any clear conclusion. Nonetheless, before we get to that, is far more important we discuss the background of the minds behind this mistery. Fernando aka Hernnandez, along with Arthur, The Great aka El Comandante spend many hours at the local "tasca" drinking and farting while arguing about their waste of money on drinks. Let it be known that these folks would be broke 3 days after they got paid, therefore, how could they afford to drink? It's another mistery yet to be solved. Out of their dreamy world, life went on, so will this blog, cause right now I have more important things to do than sitting in this desk writting about things that have no logic whatsoever. May the net storyteller keep it going, but I'LL BE BACK!

Episódio I 

Era uma vez uma pequena aldeia no interior alentejano chamada Nada de Haver. Em Nada de Haver tudo era importado: as casas, as roupas, os salários, as alegrias, as tristezas, as pessoas, as crianças. Em Nada de Haver não havia crime. Em Nada de Haver não havia beatas. Não havia religião. Não se bebia chá. Não se caçava. Não havia dedos a apontar e os telhados não eram de vidro. Em Nada de Haver todos se conheciam mas ninguém se relacionava. A D. Vanessa não ia a casa do Sr. Bruno... mas tinha gatos. O Sr. Bruno não visitava o Sr. David mas sabia quem ele era. O Sr. David sabia quem era o Sr. Bruno mas não lhe mandava mails. E havia os Srs. Artur e Fernando, velhos amigos que viviam frente a frente e preservavam a velha amizade... não se falando.

Todos os dias a D. Vanessa se levantava às 14H30 e começava o dia por ficar mal disposta. Ia à cozinha e tirava as latas de comida para gatos (da Mercearia de Nada de Haver). Nunca comprava refeições iguais para os seus meninos. As da semana passada eram Islandesas. Abundavam, portanto, os sabores frescos do pescado longínquo: salmão com arenque, pescada em vinagre, atum e lulas com molho tártaro. Eram gatos felizes. A D. Vanessa não trabalhava. Em Nada de Haver ninguém o fazia. Mas toda a gente sabia que ela falava Ninês.

Em Nada de Haver todos falavam pelo menos três línguas: Espanhol (a primeira a ser importada), Inglês (a segunda a ser importada) e Alemão (a terceira a ser importada). Todos eram fluentes nas suas línguas.
Mas havia aquele maldito dialecto. Numa terra importada, onde até os sorrisos eram de fora, havia o velho espectro de uma língua antiga que ali se praticava. Por isso falar Ninês era proibido.

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